Minha

Hoje eu ri de todos os amantes. Os tolos, os infantis, os sisudos. Desprezei declarações comedidas e “eu te amo”s gritados do fundo dos pulmões. Lamentei, com aquela velha sensação de superioridade, todas aquelas pessoas invejáveis em sua ventura.

Porque elas não sabem o que eu sinto.

Gargalhei de todos os poetas, cantando suas musas e seus sabores. Com um sorriso condescendente, deixei os brutos com suas cartinhas mal escritas. Não fui preconceituoso: ignorei os aplausos aos grandes escritores. Todos eles, tão infelizes.

Porque não sabem o que eu sinto.

Pra que largar tanto amor ao vento? Deixar se perderem, indefesas no lado externo do peito, essas crianças que nunca crescem? Por que, meu Deus, sujar quilos de papel com preciosidades inomináveis? Diz-se, declara-se, perde-se, gasta-se. Não, eles não sabem o que fazer com seus amores.

Hoje o mundo está sujo de tantas frases que perderam seu sentido de existir. Céus, juntemos as palavras de carinho numa grande montanha de lixo! São todas usadas e recicladas, ama-se em ciclos ecológicos. Diz-se, e logo se perde o que deu origem ao que foi dito. Eu prefiro ser avaro, e juntar meus diamantes brutos. Gosto de sentir você me doer inteiro.

Não, você também não sabe o que eu sinto. Não faz idéia sequer de um quinto dos nomes que te dei dentro de mim. E nem por isso sou menos sincero.

Eu não te amo, eu não te quero, eu não te desejo. Você já é minha antes de eu ser de mim. Não importa o que aconteça, eu duvido que alguém algum dia irá te possuir como eu. Dessa forma que nem você nem eu sabemos. Essa mesmo, que você nem sabe que existe. Esse vazio tão pontiagudo.

Você me foi um tiro que errou o alvo, e o sangue escorrendo assim mesmo.

Idéia Impossível

“Deus nos dá pessoas e coisas, para aprendermos a alegria… Depois, retoma coisas e pessoas para ver se já somos capazes da alegria sozinha…”

É do Guimarães Rosa. Da novela “Buriti”, se não estou enganado. No Grande Sertão, ele também menciona essa ideiazinha impossível. Não consigo imaginar a perda de certas pessoas sem ter a nítida sensação de mutilação. Sem anestesia; nem ao menos uma cana pra aliviar. Machadada, suja, enferrujada, desferida por um carrasco que cospe no chão. Depois de 30 dias numa masmorra úmida, conversando com um velhinho demente, que esteve lá a vida inteira.

Ainda que a natureza da minha felicidade seja autosuficiente. Ainda que solidão seja o ar que eu alegremente respiro.

Recorte III

- Oi!

- Olá, tudo bem?

- Olha, a essa hora da noite, melhor evitar esse tipo de questionamento filosófico polêmico.

Uma alegria

Três pardais brincavam descuidados nos fios de telefone, nos postes, no pé-de-romã. Heleninha olhava, absorta. “Que é que está fazendo?”, a mãe. “Vem ver os pass’rinhos, mãe. Estão brincando de pique-pega”. “Mais o que fazer, minh’ filha. Mais o que fazer”. Foi-se a mãe cozinhar, arrumar a casa, costurar os botões caídos da camisa do mundo. Heleninha, ficou. Os pardais agora brincavam de roda.

De volta às origens

E essa chuva que cai, e me lava a alma? Tão minha irmã, e tão capaz de me fazer feliz. Essa chuva tem História. Tem passado e tem futuro. Nosso caso é de festas, paixões e tristezas. Juntos, eu e ela. Como ser tolo e acreditar que cabem mais do que duas pessoas (eu e a chuva) nessa dança? Tudo o que é nosso é só nosso, de mais ninguém. Compartilhar é uma ilusão daqueles que não se conformam com o naufrágio que é a vida. Eu lembro sozinho; até mesmo do que vivi em conjunto. E o que é importante pra mim não o é para mais ninguém.

Você que me lê, não me considere bobo. Isso tudo vale pra você também.

Uma carta

_______?

Atenciosamente,

Eu

Encontro com a solidão

Das dores que rodeiam o mundo, a mais escurecedora é a decepção. Que sejamos surrados, escorraçados, esfolados e traídos! Que a luz do sol nos queime, mas que venha o sol como o conhecemos, todas as manhãs. E que não olhemos espantados e entristecidos quando for meio-dia e a noite continua a brincar pela janela.

Todas as dores do mundo nos são impostas, de cima a baixo, como um martelo invisível e amargo. Menos a decepção. Essa explode de dentro pra fora, rasga tecidos, adormece a mente. Não é grande. Não é sequer uma dor. É um desalinho, somente. Um suspiro, e uma certeza de que no fundo estamos todos sozinhos.

Entre aspas II

“Você nao entende que o amor engloba tudo? Eu queria que você fosse tudo pra mim… e que também fosse nada… e que também fosse quase nada… e que fosse quase tudo.”

Recorte

- Mas veja bem; é mto mais fácil gostar de alguém em momentos alegres…
- É?
- Ou não, sei lá. Falei sem pensar…
- Ah, bem. Porque eu já ia discordar.
- Você acha que é o contrario?
- Não. Eu ia discordar sem pensar!

Sorriram juntos.

Eu gosto de festa junina

Tem sempre um frio bom. Céu estrelado, e árvores pretas. Tem, claro, fogueira, salsichão e retalhos. É tempo de ser criança. Os adultos que me desculpem, mas festa junina é coisa de criança. Todo mundo que é grande vai diminuindo à medida que a fogueira vai acendendo. Adultos não se hipnotizam com fogo, não contam estrelas nem histórias de fantasma. Adultos nem sentem frio.

Roupas de caipira, tem. Dentes pretos e sardas falsificadas. Forró e quadrilha, e sempre alguém que a gente não vê há tempos. Quindim, queijadinha, suspiro, pé-de-moleque, paçoca, cuscuz, canjica, pipoca doce. E gente grande lá come essas coisas? Vai chegando junho, e já sinto uma certa comoção nos núcleos das células. A gente se assusta, mas logo acostuma e vê que é o rejuvenescimento dos festejos. São João, Santo Antônio, e um outro santo de nome também simpático; gente nunca lembra direito qual dia é de quem.

Brinca-se. Tem dança da laranja, seu mestre mandô, corrida do ovo, corrida do saco, e o que mais vier. Pode inventar também. Todo mundo vai, todo mundo é amigo. Quem é que briga debaixo de céu completinho, sem nenhuma estrela faltando? Tem música, feliz, triste, tem gente dormindo cedo. Tem parente, tem vizinho, tem quem ninguém sabe quem é. Tem é muita alegria. Festa junina é um grande abraço na gente.

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